Você fez uma cirurgia abdominal e, meses ou até anos depois, percebeu uma bolinha ou abaulamento próximo à cicatriz e tem dúvida se pode ser uma hérnia incisional?
Sim. Essa situação é mais comum do que muitas pessoas imaginam. Estudos mostram que a hérnia incisional pode ocorrer em cerca de 13% dos pacientes nos primeiros dois anos após uma cirurgia abdominal realizada por incisão mediana.
A hérnia incisional surge na região de uma cirurgia anterior, quando ocorre uma falha nas camadas profundas da parede abdominal. Isso não significa necessariamente que houve algum problema na cirurgia: sua formação envolve diversos fatores relacionados à cicatrização, às características do paciente e ao próprio procedimento.
E há outro ponto importante: ela nem sempre aparece logo depois da operação. Uma hérnia incisional pode se tornar evidente meses ou até anos mais tarde.
O que é uma hérnia incisional?
A hérnia incisional acontece quando surge um defeito nas camadas profundas da parede abdominal em uma região previamente operada.
A pele pode estar completamente cicatrizada por fora, enquanto a camada mais profunda responsável pela resistência da parede abdominal apresenta uma abertura. É por esse defeito que gordura ou estruturas de dentro do abdômen podem se projetar, formando a “bolinha” que o paciente percebe.
Ela pode variar desde um pequeno defeito próximo à cicatriz até hérnias grandes, que modificam significativamente a anatomia da parede abdominal.
Por que pode aparecer uma hérnia depois de uma cirurgia?
A formação de uma hérnia incisional é multifatorial. Isso significa que geralmente não existe uma única causa.
Alguns fatores podem aumentar o risco, como obesidade, tabagismo, diabetes e infecção da ferida operatória. As características da cirurgia, o tipo de incisão e fatores relacionados à cicatrização dos tecidos também podem influenciar.
Por isso, desenvolver uma hérnia incisional não significa necessariamente que os pontos “abriram” ou que a cirurgia anterior foi malfeita. Mesmo uma cicatriz que aparentemente evoluiu muito bem pode apresentar, posteriormente, uma falha nas camadas mais profundas da parede abdominal.
Quanto tempo depois da cirurgia a hérnia incisional pode aparecer?
Não existe um prazo. Muitas hérnias incisionais tornam-se perceptíveis nos primeiros anos após a cirurgia, mas elas também podem aparecer vários anos depois.
Isso explica por que um paciente que operou o abdome há bastante tempo pode perceber uma nova bolinha sobre uma cicatriz e não relacioná-la inicialmente à cirurgia anterior. O tempo transcorrido desde a operação não exclui o diagnóstico de hérnia incisional.
Como saber se tenho uma hérnia na cicatriz?
O sinal mais característico é um abaulamento ou uma bolinha sobre ou próxima a uma cicatriz de cirurgia abdominal.
Ela pode ficar mais evidente quando o paciente está em pé, tosse ou faz algum esforço. Algumas pessoas também apresentam dor, sensação de peso, desconforto ou repuxamento na região.
O diagnóstico começa pela história e pelo exame físico. Quando é necessário confirmar o quadro ou entender melhor as características da hérnia, exames de imagem podem ser solicitados. A tomografia computadorizada é especialmente útil no planejamento de hérnias incisionais maiores ou mais complexas.
→ Leia também: Qual o melhor exame para detectar uma hérnia: ultrassom, tomografia ou ressonância?
A hérnia incisional pode aumentar de tamanho?
Sim. O defeito da parede abdominal não fecha espontaneamente e pode aumentar ao longo do tempo. Com essa progressão, uma hérnia que inicialmente causava pouco ou nenhum incômodo pode começar a provocar sintomas e interferir nas atividades do dia a dia.
Hérnias maiores também podem modificar progressivamente a anatomia da parede abdominal e exigir um planejamento mais cuidadoso para sua reconstrução.
→ Leia também: Minha hérnia aumentou de tamanho, devo me preocupar?
Assim como outras hérnias da parede abdominal, a hérnia incisional também pode encarcerar e, em determinadas situações, evoluir para estrangulamento. Uma mudança súbita no comportamento da hérnia, principalmente quando ela fica presa e dolorosa, precisa ser avaliada.
→ Leia também: Hérnia encarcerada e hérnia estrangulada: qual é a diferença e quando procurar uma emergência?
Toda hérnia incisional precisa ser operada?
Não necessariamente de forma imediata. Pacientes selecionados com hérnias redutíveis, assintomáticas ou com sintomas leves que não comprometem a qualidade de vida podem, após avaliação do cirurgião, ser acompanhados sem cirurgia naquele momento. Essa estratégia é conhecida como espera vigilante (watchful waiting).
Os estudos mostram que, nesses pacientes, o risco de uma complicação aguda é relativamente baixo, em torno de 1% no primeiro ano e 2,5% em cinco anos. Parte dos pacientes, porém, acaba realizando a cirurgia ao longo do acompanhamento, principalmente quando aparecem ou pioram os sintomas.
Quando a hérnia causa dor, desconforto ou impacto na qualidade de vida, a cirurgia passa a ter um papel mais importante, desde que as condições clínicas permitam o procedimento.
Por isso, a decisão de acompanhar ou operar deve ser individualizada e discutida com o cirurgião.
Por que alguns pacientes precisam se preparar antes da cirurgia?
Nas hérnias incisionais, principalmente nas maiores e mais complexas, o tratamento pode começar antes da cirurgia propriamente dita.
Parar de fumar, controlar adequadamente o diabetes e reduzir peso quando indicado são exemplos de medidas que podem fazer parte do preparo pré-operatório. O objetivo é diminuir riscos e proporcionar melhores condições para a cicatrização e recuperação.
Esse período de preparação não significa simplesmente “adiar a cirurgia”. Ele faz parte do planejamento do tratamento.
Como é feita a cirurgia da hérnia incisional?
O objetivo da cirurgia é reconstruir a parede abdominal e reforçar a região onde existe o defeito, frequentemente com o uso de uma tela.
Uma pequena hérnia em uma cicatriz e uma grande hérnia incisional que modifica a anatomia da parede abdominal são problemas bastante diferentes. Por isso, não existe uma única cirurgia indicada para todos os casos.
A correção pode ser realizada por cirurgia aberta, laparoscópica ou robótica, dependendo das características da hérnia e do paciente.
Quando a cirurgia robótica é indicada e tecnicamente possível, ela permite realizar etapas da reconstrução por pequenas incisões, com instrumentos articulados e maior liberdade de movimentos para dissecção e sutura. Isso pode ser particularmente útil em algumas reconstruções da parede abdominal.
A cirurgia aberta, por outro lado, continua tendo papel importante e pode ser a abordagem mais adequada em determinados casos, especialmente conforme o tamanho e a complexidade da hérnia.
A melhor técnica é aquela indicada para as características da hérnia e daquele paciente, definida durante um planejamento individualizado.
→ Leia também: Cirurgia de hérnia com robô: vale a pena ou é só marketing?
Apareceu uma bolinha na cicatriz. O que fazer?
Se você percebeu um abaulamento, uma bolinha ou um desconforto persistente próximo à cicatriz de uma cirurgia abdominal, procure avaliação com um cirurgião dedicado ao tratamento das hérnias da parede abdominal.
Nem toda alteração próxima a uma cicatriz é necessariamente uma hérnia. O exame clínico e, quando necessário, os exames de imagem permitem confirmar o diagnóstico, avaliar o tamanho e as características do defeito e decidir se o melhor caminho naquele momento é acompanhar ou tratar.
No Hernia Brasil, acreditamos que cada hérnia incisional precisa ser avaliada individualmente. Entender o defeito, os sintomas e as características do paciente é fundamental para planejar um tratamento seguro e adequado.
Referências
Este conteúdo foi desenvolvido com base em informações respaldadas por evidências científicas e em materiais educacionais revisados, assegurando precisão, confiabilidade e alinhamento com padrões clínicos atualizados.
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Este texto tem finalidade exclusivamente educacional e não substitui a avaliação individualizada por um profissional de saúde.



