“Tenho mais medo da anestesia do que da cirurgia.” Essa é uma frase muito comum no consultório. O medo da anestesia geral, de não acordar depois da cirurgia ou de despertar durante o procedimento pode gerar bastante ansiedade nos pacientes.
É importante explicar que nem toda cirurgia de hérnia precisa de anestesia geral. A escolha depende principalmente do tipo de cirurgia, da técnica utilizada e das condições de saúde de cada paciente.
Entender como essa escolha é feita e como o paciente é monitorado durante o procedimento ajuda a tornar esse momento muito mais tranquilo.
Toda cirurgia de hérnia precisa de anestesia geral?
Não. Na cirurgia convencional da hérnia inguinal, por exemplo, é possível realizar o procedimento com anestesia local associada à sedação. Já nas cirurgias de hérnia por laparoscopia ou cirurgia robótica, utiliza-se anestesia geral.
São procedimentos realizados de maneiras diferentes e, por isso, exigem estratégias anestésicas diferentes.
Qual anestesia usamos na cirurgia convencional da hérnia inguinal?
Na nossa prática, utilizamos frequentemente anestesia local associada à sedação na cirurgia para tratamento da hérnia na virilha feita de forma convencional.
O anestésico local bloqueia a dor na região operada, enquanto a sedação mantém o paciente relaxado e sonolento durante o procedimento.
Essa escolha tem respaldo nas diretrizes internacionais para a cirurgia aberta da hérnia inguinal e apresenta algumas vantagens, entre elas menor risco de retenção urinária quando comparada à anestesia regional (raquianestesia).
Em hérnias maiores ou situações que exigem uma manipulação mais extensa, podemos associar a anestesia local à anestesia geral. A estratégia é definida de acordo com as características da hérnia, da cirurgia e do próprio paciente.
Qual anestesia é usada na cirurgia laparoscópica e robótica de hérnia?
As cirurgias laparoscópicas e robóticas são realizadas com anestesia geral.
Nessas técnicas, trabalhamos por pequenas incisões e criamos temporariamente um espaço dentro do abdome utilizando gás carbônico. Esse espaço, chamado pneumoperitônio, permite visualizar as estruturas e movimentar os instrumentos com precisão.
A anestesia geral permite controlar adequadamente a respiração, manter um bom relaxamento da musculatura abdominal e garantir que o paciente permaneça imóvel, confortável e profundamente anestesiado durante todo o procedimento.
Por isso, ela faz parte da realização dessas técnicas. As cirurgias minimamente invasivas têm como vantagem a recuperação precoce do paciente, redução da dor pós-operatória e do tempo de internamento.
→ Leia também: Cirurgia robótica ou laparoscópica para hérnia abdominal: qual é melhor?
Anestesia geral é perigosa?
Esse talvez seja o maior medo dos pacientes quando há indicação de cirurgia.
A anestesia geral não é isenta de riscos, mas atualmente é realizada de maneira muito controlada e segura. E a segurança não depende apenas dos medicamentos utilizados: começa antes da cirurgia e continua durante todo o procedimento.
Antes de operar, avaliamos doenças preexistentes, medicamentos em uso, alergias, experiências anteriores com anestesia e outros fatores relevantes. Exames e avaliações complementares, inclusive cardiológica quando necessária, são solicitados de acordo com as características de cada paciente e da cirurgia.
Com essas informações, cirurgião e anestesista conseguem identificar fatores de risco, fazer os ajustes necessários e planejar a anestesia de maneira individualizada.
→ Leia também: Toma remédio? Saiba quais medicamentos manter ou suspender antes da cirurgia
Posso acordar ou sentir dor durante a anestesia geral?
Essa é uma preocupação muito comum, mas é importante entender o que realmente pode acontecer.
Durante a anestesia geral, o objetivo é manter o paciente inconsciente, confortável e sem sentir dor durante todo o procedimento. O anestesista permanece ao seu lado, acompanhando continuamente a resposta do organismo e ajustando os medicamentos sempre que necessário.
A chamada consciência durante a anestesia é raríssima e, quando ocorre, geralmente não significa que a pessoa “acordou” completamente durante a cirurgia. Na maioria das vezes, são descritos breves momentos de percepção ou alguma lembrança, como sons, sensação de pressão ou uma experiência semelhante a um sonho. A maioria dos pacientes não sente dor.
Também é importante colocar esse risco em contexto. Esse fenômeno é mais descrito em situações como cirurgias de emergência, traumas graves e alguns procedimentos de maior risco, nos quais as condições clínicas do paciente podem limitar a quantidade de anestésico utilizada.
Esse cenário é bastante diferente de uma cirurgia de hérnia eletiva e planejada, em que o paciente é avaliado previamente, a anestesia é programada e existe monitorização contínua durante todo o procedimento.
Na nossa prática, utilizamos também o BIS nas anestesias gerais. Trata-se de um monitor que analisa sinais da atividade cerebral e fornece ao anestesista uma informação adicional sobre a profundidade da anestesia e os níveis de atividade cerebral.
Assim, além dos outros parâmetros monitorados, a equipe acompanha a profundidade anestésica e pode ajustar os medicamentos ao longo da cirurgia para manter o nível de anestesia adequado.
O que o anestesista monitora durante a cirurgia?
Muito mais do que o paciente imagina. Durante a anestesia, são acompanhados continuamente parâmetros como ritmo e frequência cardíaca, pressão arterial, oxigenação e respiração. Na anestesia geral, também são monitoradas a ventilação e a eliminação de gás carbônico, além de outros parâmetros necessários de acordo com o procedimento e as condições clínicas.
Na nossa prática, acrescentamos ainda a monitorização da profundidade da anestesia com o BIS. Essas informações são acompanhadas pelo anestesista durante toda a operação. Se algum parâmetro se modifica, ele pode agir imediatamente, ajustando anestésicos, ventilação, líquidos ou outros medicamentos.
Por isso, o papel do anestesista vai muito além de “fazer o paciente dormir”. Ele cuida do paciente e de suas funções vitais durante toda a cirurgia.
Como tornar a anestesia mais segura antes da cirurgia?

A segurança começa com um bom preparo. Informe à equipe todas as doenças que possui e todos os medicamentos e substâncias que utiliza, inclusive anticoagulantes, medicamentos para diabetes ou emagrecimento, suplementos, fitoterápicos, CBD e THC.
Nem todo paciente precisa dos mesmos exames ou de avaliação cardiológica. Esses cuidados são definidos individualmente conforme as condições de saúde e o procedimento planejado.
Também não suspenda medicamentos por conta própria. Alguns precisam ser interrompidos antes da cirurgia, enquanto outros devem ser mantidos.
→ Leia também: Cannabis antes da cirurgia: tudo o que você precisa saber sobre o uso de CBD e THC
Afinal, qual é a melhor anestesia para cirurgia de hérnia?
Não existe uma única anestesia que seja ideal para todas as cirurgias de hérnia.
Na cirurgia convencional da hérnia inguinal, podemos utilizar anestesia local associada à sedação e, em situações específicas, associá-la à anestesia geral. Nas cirurgias laparoscópicas e robóticas, utilizamos anestesia geral.
Mais importante do que ter medo de um determinado tipo de anestesia é saber que ela é planejada antes da operação e acompanhada continuamente por uma equipe especializada.
No Hernia Brasil, acreditamos que a equipe de anestesia também faz parte do planejamento da cirurgia. Trabalhamos rotineiramente com anestesistas de nossa confiança, habituados aos procedimentos que realizamos e integrados à equipe cirúrgica. Essa parceria permite que cirurgião e anestesista planejem juntos cada caso, desde a estratégia anestésica até o controle da dor e a recuperação após o procedimento.
Uma cirurgia bem planejada não depende apenas de uma boa técnica cirúrgica. Uma equipe integrada também faz diferença para a segurança, o conforto e a recuperação do paciente.
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Dra. Natália Pascotini
Médica: CRM 229545/SP
Cirurgia Geral – RQE Nº: 29210
Cirurgia do Aparelho Digestivo – RQE Nº: 121318
Dr. Paulo Henrique Fogaça Barros
Médico CRM: 141104/SP
Cirurgia do Aparelho Digestivo – RQE Nº: 60770
Cirurgia Geral – RQE Nº: 60769
Referências
- HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia. 2018;22(1):1-165. doi:10.1007/s10029-017-1668-x.
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- Olsen JHH, Öberg S, Andresen K, Klausen TW, Rosenberg J. Network meta-analysis of urinary retention and mortality after Lichtenstein repair of inguinal hernia under local, regional or general anaesthesia. British Journal of Surgery. 2020;107(2). doi:10.1002/bjs.11308.
- American Society of Anesthesiologists (ASA). General Anesthesia. Made for This Moment.
- American Society of Anesthesiologists (ASA). Anesthesia Awareness (Waking Up) During Surgery. Made for This Moment.
- American Society of Anesthesiologists (ASA). Basic Standards for Preanesthesia Care.
Este texto tem finalidade exclusivamente educacional e não substitui a avaliação individualizada pelo cirurgião e pelo anestesiologista.



