Nos últimos anos, a seguinte pergunta passou a fazer parte da consulta pré-operatória com muito mais frequência: “Eu uso maconha ou medicamentos à base de cannabis (CBD e THC), isso interfere na cirurgia?”
A resposta é objetiva: interfere, sim.
E, por isso, o uso precisa ser alinhado de forma prévia com o cirurgião responsável. O uso de cannabis, seja recreativo ou medicinal, é hoje uma realidade. Óleo de CBD, produtos com THC, combinações dos dois, uso eventual, uso regular.
Independentemente do contexto, existe um ponto que não muda: essas substâncias atuam exatamente nos sistemas que a anestesia também precisa controlar. E é aí que a conversa se torna importante.
Como a cannabis pode interferir
Durante uma anestesia, nós controlamos funções vitais com precisão:
- Respiração
- Pressão arterial
- Frequência cardíaca
- Nível de sedação
- Controle da dor
A cannabis também age nesses mesmos sistemas.
Na prática clínica, o que pode acontecer?
- Vias aéreas mais sensíveis, principalmente em quem fuma ou vaporiza;
- Alterações transitórias na pressão e nos batimentos cardíacos;
- Necessidade de ajustes na dose de anestésicos;
- Em alguns casos, maior necessidade de analgesia no pós-operatório;
Isso não transforma a cirurgia em algo proibido, mas exige um planejamento mais atento e atenção começa com informação.
“Mas eu uso só de vez em quando…”
Mesmo assim, vale avisar.
Nas horas seguintes ao consumo, podem ocorrer alterações cardiovasculares que, fora do ambiente cirúrgico, passam despercebidas. Dentro de uma sala operatória, onde buscamos estabilidade absoluta, essas variações ganham relevância.
Por isso, evitar o uso no dia da cirurgia é uma medida prudente. Em pacientes que usam com mais frequência, especialmente produtos com THC, uma pausa prévia de alguns dias, geralmente cerca de 72 horas antes da anestesia geral, costuma oferecer maior previsibilidade clínica.
Não é uma regra punitiva. É uma estratégia de segurança.
E o óleo de CBD? É diferente?

É diferente, mas não é neutro.
Produtos com THC costumam ter impacto mais evidente sobre frequência cardíaca e pressão arterial. Já o CBD isolado tende a ter comportamento mais estável. Ainda assim, interage com o sistema nervoso e pode influenciar o planejamento anestésico.
Se o uso for por prescrição médica, a decisão não deve ser tomada de forma automática. Cada caso precisa ser analisado no contexto do tipo de cirurgia e da condição clínica do paciente.
O erro do paciente não é usar as substâncias, mas não contar sobre isso para o médico.
A cannabis pode influenciar na dor depois da cirurgia?
Pode.
Em pacientes que utilizam cannabis de forma regular, é relativamente comum observar maior necessidade de ajustes na medicação analgésica no pós-operatório.
Quando sabemos disso antes, conseguimos organizar uma estratégia mais adequada, e isso muda a experiência de recuperação.
Também pode haver maior tendência a náuseas em determinados perfis de uso, algo que pode ser prevenido quando antecipado.
Quando devo parar antes da cirurgia?
De forma objetiva:
- Não utilize cannabis recreativa no dia da cirurgia.
- Em caso de uso frequente ou produtos com THC, considere interromper pelo menos 72 horas antes da anestesia geral.
Essa janela reduz variáveis no momento em que buscamos máxima estabilidade.
Se houver dificuldade para interromper temporariamente, isso deve ser comunicado. Algumas pessoas podem apresentar irritabilidade, alteração do sono ou desconforto ao suspender o uso, e isso pode ser acompanhado com segurança quando sabemos previamente.
O que realmente importa
O anestesista e cirurgião não estão interessados em julgar escolhas pessoais.
Eles estão interessados em entender como o seu organismo responde para tornar o procedimento mais seguro possível. Quanto mais clara for essa conversa, mais preciso será o plano anestésico. E, na prática, isso faz diferença.
Cirurgia bem conduzida começa antes da sala operatória com uma conversa franca e responsável.
Referencias:
Este conteúdo foi desenvolvido com base em informações respaldadas por evidências científicas e em materiais educacionais revisados, assegurando precisão, confiabilidade e alinhamento com padrões clínicos atualizados.
American College of Surgeons. Marijuana and Surgery. American College of Surgeons.
American Society of Anesthesiologists. Cannabis and Surgery: What Patients Should Know. American Society of Anesthesiologists.
Ziemann-Gimmel P, et al. Perioperative care of cannabis users: A comprehensive review of pharmacological and anesthetic considerations. Journal of Clinical Anesthesia. 2019;57:41–49. doi:10.1016/j.jclinane.2019.03.005.
Harvard Health Publishing. Coming clean: your anesthesiologist needs to know about marijuana use before surgery. Harvard Medical School.
Este texto tem finalidade educacional e não substitui a avaliação individualizada por um profissional de saúde.




