Hérnia encarcerada e hérnia estrangulada: qual é a diferença e quando procurar uma emergência?

Hérnia encarcerada e hérnia estrangulada não são a mesma coisa. Entender a diferença é importante, principalmente para reconhecer quando uma hérnia precisa de atendimento de urgência.

De forma simples, uma hérnia encarcerada é aquela que fica presa e não volta para dentro do abdome. Já na hérnia estrangulada, além de estar preso, o conteúdo sofre comprometimento da circulação sanguínea.

ATENÇÃO: se uma hérnia que antes voltava para dentro subitamente ficou presa, principalmente se surgiu dor, procure atendimento médico de urgência.

O que é uma hérnia encarcerada?

Muitas hérnias são inicialmente redutíveis: a “bolinha” diminui ou desaparece quando o paciente deita ou quando o conteúdo retorna para dentro do abdome.

Quando isso deixa de acontecer, a hérnia está encarcerada ou irredutível.

Mas existe uma diferença importante.

Uma hérnia pode estar cronicamente encarcerada, permanecendo irredutível há bastante tempo, sem mudanças recentes e causando apenas desconforto leve. Ela precisa de avaliação e planejamento do tratamento, mas não representa necessariamente uma emergência naquele momento.

Outra situação é a hérnia que antes entrava e saía e subitamente ficou presa, principalmente quando isso vem acompanhado de dor. Esse é um encarceramento agudo e precisa de avaliação de urgência, pois pode evoluir para obstrução intestinal ou estrangulamento.

Leia também: Minha hérnia está piorando? 7 sinais de que é hora de procurar um cirurgião

O que é uma hérnia estrangulada?

Quando uma parte do intestino, gordura ou outro tecido fica presa no orifício da hérnia, esse conteúdo pode inchar. Com pouco espaço para retornar ao abdome, ele fica progressivamente mais comprimido no local por onde passou.

Essa compressão pode comprometer a circulação sanguínea. O sangue deixa de chegar adequadamente ao tecido preso e, sem oxigênio, ele começa a sofrer.

É isso que chamamos de hérnia estrangulada.

Essa evolução pode acontecer rapidamente. Em poucas horas, um encarceramento agudo pode evoluir para estrangulamento.

Quando o conteúdo preso é uma alça intestinal, a falta de circulação pode causar necrose, ou seja, a morte daquele segmento. Nesse caso, a cirurgia pode ser muito maior do que simplesmente corrigir a hérnia: pode ser necessário retirar parte do intestino e reconstruir o trânsito intestinal.

Se houver contaminação ou infecção, aumentam também os riscos de complicações, o tempo de internação e a possibilidade de outros procedimentos ou novas cirurgias.

Por isso, uma hérnia estrangulada é uma emergência cirúrgica.

Quais são os sintomas de uma hérnia encarcerada ou estrangulada?

Procure atendimento de urgência se uma hérnia que antes reduzia subitamente ficar presa, principalmente quando houver:

• dor intensa ou que está aumentando;
• abaulamento endurecido, tenso ou muito sensível;
• náuseas ou vômitos;
• distensão abdominal;
• dificuldade para eliminar gases ou evacuar;
• vermelhidão ou mudança da coloração da pele sobre a hérnia.

Não é necessário esperar que todos esses sintomas apareçam juntos.

Uma hérnia que deixou de reduzir e passou a doer já merece avaliação.

Posso tentar colocar uma hérnia presa para dentro?

Se você tem uma hérnia redutível, está acostumado a colocá-la para dentro e já recebeu orientação do seu cirurgião sobre como fazer isso, pode realizar a manobra habitual delicadamente.

Mas não insista.

Se a hérnia estiver mais difícil de reduzir do que normalmente, oferecer resistência, estiver muito dolorosa ou simplesmente não voltar para dentro, não faça força sobre a região.

Também não tente resolver a situação apertando uma cinta ou funda.

Procure atendimento de urgência. O cirurgião poderá examiná-lo e, quando necessário, solicitar exames para avaliar o conteúdo da hérnia, a presença de obstrução e possíveis sinais de comprometimento da circulação sanguínea. Dependendo dos achados, pode ser necessária uma cirurgia de urgência.

Leia também: Posso empurrar a hérnia para dentro? É perigoso fazer isso?

Toda hérnia tem o mesmo risco de estrangulamento?

Não. O risco depende do tipo, da localização e das características da hérnia.

Um exemplo importante é a hérnia femoral, localizada na região da virilha. Ela é mais frequente em mulheres e apresenta maior risco de encarceramento e estrangulamento, por isso merece atenção especial quando diagnosticada.

Também é importante lembrar que uma hérnia pequena não é necessariamente menos perigosa do que uma grande. O tamanho da “bolinha”, sozinho, não determina o risco de complicação.

Por que é melhor tratar a hérnia antes que aconteça uma complicação?

Quando existe indicação cirúrgica, uma cirurgia eletiva e planejada permite preparar o paciente e realizar a correção da hérnia buscando uma reconstrução segura e duradoura, além de proporcionar um pós-operatório mais previsível.

Em uma cirurgia de urgência por estrangulamento, a prioridade é outra: tratar o tecido que está sofrendo, retirar aquele que perdeu sua viabilidade e controlar uma possível contaminação ou infecção.

Nessas condições, nem sempre é possível realizar a mesma reconstrução definitiva da parede abdominal que seria planejada em uma cirurgia eletiva. Dependendo do caso, podem ser necessários outros procedimentos ou até uma nova cirurgia no futuro.

Por isso, esperar uma hérnia complicar pode transformar uma cirurgia programada em uma operação maior, com recuperação mais difícil e maior risco de complicações.

Isso não significa que toda hérnia precise ser operada imediatamente. Mas, quando existe indicação cirúrgica, o objetivo é realizar o tratamento de forma planejada, antes que uma complicação determine quando e como a cirurgia precisará ser feita.

Leia também: Toda hérnia abdominal precisa de cirurgia?

O mais importante é perceber quando a hérnia mudou

Uma hérnia que está cronicamente encarcerada e sem mudanças recentes é diferente de uma hérnia que antes voltava para dentro e subitamente ficou presa e dolorosa.

Essa mudança merece avaliação de urgência.

Se houver comprometimento da circulação do conteúdo preso, ocorre o estrangulamento, uma emergência cirúrgica que pode evoluir rapidamente.

Por isso, conheça o comportamento habitual da sua hérnia e fique atento às mudanças.

No Hernia Brasil, acreditamos que reconhecer esses sinais permite procurar atendimento no momento certo e, sempre que possível, planejar o tratamento antes que uma complicação aconteça.

Referências

  • HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia. 2018;22(1):1-165. doi:10.1007/s10029-017-1668-x.
  • Stabilini C, van Veenendaal N, Aasvang E, et al. Update of the international HerniaSurge guidelines for groin hernia management. BJS Open. 2023;7(5):zrad080. doi:10.1093/bjsopen/zrad080.
  • Henriksen NA, Montgomery A, Kaufmann R, et al. Guidelines for treatment of umbilical and epigastric hernias from the European Hernia Society and Americas Hernia Society. British Journal of Surgery. 2020;107(3):171-190. doi:10.1002/bjs.11489.
  • American College of Surgeons (ACS). Adult Inguinal and Femoral Groin Hernia Repair.
  • American College of Surgeons (ACS). Adult Umbilical Hernia Patient Education.
  • American College of Surgeons (ACS). Ventral Hernia Repair.

Este texto tem finalidade educacional e não substitui a avaliação individualizada por um profissional de saúde.

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