Toda hérnia abdominal precisa de cirurgia?

Receber o diagnóstico de uma hérnia costuma trazer uma dúvida imediata: vou precisar operar?

A resposta é que, na maioria dos casos, sim. Isso acontece porque a hérnia é um defeito da parede abdominal e, até o momento, a cirurgia é o único tratamento capaz de corrigir esse problema. 

No entanto, isso não significa que toda hérnia deve ser operada imediatamente. Existe uma situação bem específica em que é possível apenas acompanhar a evolução antes da cirurgia. Entender essa diferença ajuda o paciente a tomar decisões compartilhadas com seu cirurgião e evita atrasos que podem trazer prejuízos ao tratamento.

Por que a cirurgia é o único tratamento capaz de corrigir uma hérnia?

A hérnia acontece quando surge uma abertura na parede abdominal, permitindo que gordura ou parte do intestino se projete através desse defeito.

Como esse ‘espaço’ não se fecha espontaneamente, nenhum medicamento, exercício, fisioterapia, cinta ou tratamento alternativo é capaz de corrigir a hérnia. Essas medidas podem, em alguns casos, aliviar sintomas temporariamente, mas não eliminam a causa do problema.

Por isso, a cirurgia continua sendo o único tratamento capaz de reparar o defeito da parede abdominal.

→ Leia também: Vai operar uma hérnia? 10 dicas práticas para se preparar e ter uma recuperação tranquila

Então por que algumas pessoas não operam logo?

Embora a cirurgia seja o tratamento definitivo, o melhor momento para realizá-la varia de acordo com cada paciente.

O cirurgião leva em consideração fatores como:

  • tipo, tamanho e localização da hérnia; 
  • presença ou ausência de sintomas; 
  • risco de complicações; 
  • idade e condições de saúde; 
  • atividade profissional; 
  • prática de exercícios físicos; 
  • expectativa e preferência do paciente. 


Na maioria das hérnias, a indicação cirúrgica é feita logo após o diagnóstico. Entretanto, existe uma exceção importante.

A principal exceção: a espera vigilante

Em homens com hérnia inguinal assintomática, pode ser adotada uma estratégia chamada espera vigilante (watchful waiting).

Isso significa que, naquele momento, o paciente ainda não apresenta sintomas que justifiquem uma cirurgia imediata e pode optar por acompanhar a evolução da hérnia junto ao cirurgião.

É importante entender que a espera vigilante não significa abandonar o tratamento.

Durante esse período, o paciente permanece em acompanhamento médico, recebe orientações sobre os sinais de alerta e deve retornar imediatamente caso a hérnia passe a causar dor, aumente de tamanho, fique encarcerada ou apresente qualquer outro sinal de complicação.

Além disso, essa estratégia deve ser indicada apenas após avaliação de um cirurgião com experiência em hérnias da parede abdominal, pois nem todos os pacientes são candidatos a esse acompanhamento.

Espera vigilante não significa que a cirurgia nunca será necessária

Um dos maiores equívocos é pensar que, se a cirurgia foi adiada, ela deixou de ser necessária.

Na realidade, os estudos mostram que a maioria dos homens inicialmente acompanhados em espera vigilante acabam sendo operados ao longo dos anos, principalmente porque a hérnia passa a causar sintomas que interferem na qualidade de vida.

É importante destacar que a espera vigilante não significa que a hérnia deixou de ter indicação cirúrgica. Ela apenas adia a cirurgia para um momento em que o paciente passe a apresentar sintomas ou considere que os benefícios do procedimento superam os de continuar apenas acompanhando a doença.

→ Leia também: Minha hérnia está piorando? 7 sinais de que é hora de procurar um cirurgião

Ou seja, a espera vigilante não é uma alternativa definitiva ao tratamento cirúrgico. Ela permite que a cirurgia seja realizada no momento em que o paciente passa a perceber que os sintomas começaram a interferir na sua qualidade de vida ou entende que os benefícios da cirurgia superam os de continuar apenas acompanhando a hérnia.

E nas outras hérnias?

A espera vigilante é uma exceção bastante específica. Nos outros tipos de hérnias da parede abdominal, como as umbilicais, epigástricas, incisionais, femorais, de Spiegel, lombares, além das hérnias inguinais sintomáticas e das hérnias inguinais em mulheres, a indicação cirúrgica costuma ser feita após a avaliação especializada.

Isso ocorre porque a evolução natural dessas hérnias é aumentar de tamanho, passar a causar sintomas e apresentar complicações, como encarceramento ou estrangulamento.

Embora nem todas evoluam da mesma forma ou na mesma velocidade, qualquer hérnia pode complicar, motivo pelo qual o acompanhamento médico é fundamental.

Então vale a pena esperar?

Quando a espera faz parte de uma estratégia médica bem definida, acompanhada por um cirurgião e com critérios claros para indicar a cirurgia, ela pode ser uma conduta segura em casos selecionados.

Por outro lado, adiar a avaliação médica por conta própria, esperando que a hérnia desapareça sozinha ou acreditando que algum tratamento não cirúrgico irá resolvê-la, apenas posterga o tratamento adequado.

Na maioria das vezes, isso faz com que a cirurgia seja realizada quando a hérnia já aumentou de tamanho, passou a causar sintomas ou, em alguns casos, após uma complicação.

Como decidir o momento ideal da cirurgia?

Não existe uma resposta única para todos os pacientes. A indicação da cirurgia depende do tipo, do tamanho e da localização da hérnia, da presença de sintomas, do risco de complicações, das condições de saúde do paciente e de suas necessidades individuais.

Por isso, a melhor decisão sempre deve ser tomada em conjunto com um cirurgião especializado em hérnias da parede abdominal.

Qual é a melhor decisão?

Na maioria dos casos, a hérnia acabará precisando de cirurgia, pois esse é o único tratamento capaz de corrigir o defeito da parede abdominal. 

A principal exceção é a estratégia de espera vigilante para homens com hérnia inguinal assintomática. Mesmo nessa situação, estudos mostram que a maior parte dos pacientes acabam sendo operados ao longo dos anos devido ao aparecimento de sintomas.

No Hernia Brasil, acreditamos que cada paciente deve ser avaliado de forma individualizada. Mais importante do que perguntar “toda hérnia precisa de cirurgia?” é entender qual é o momento mais adequado para realizar esse tratamento, levando em consideração o tipo de hérnia, os sintomas, as características do paciente.

→ Leia também: Pós-operatório de hérnia abdominal: o que esperar e como se preparar

Referências

  • HerniaSurge Group. International guidelines for groin hernia management. Hernia. 2018;22(1):1-165. doi: 10.1007/s10029-017-1668-x
  • Stabilini C, van Veenendaal N, Aasvang E, et al. Update of the international HerniaSurge guidelines for groin hernia management. BJS Open. 2023;7(5):zrad080. doi:10.1093/bjsopen/zrad080.
  • Henriksen NA, Montgomery A, Kaufmann R, et al. Guidelines for treatment of umbilical and epigastric hernias from the European Hernia Society and Americas Hernia Society. Br J Surg. 2020;107(3):171-190. doi:10.1002/bjs.11489.
  • Eguchi M, Souza E Silva Silva T, Guimarães Forchezatto E, et al. Watchful waiting vs. early repair for asymptomatic and mildly symptomatic inguinal hernia – silent hernia, loud debate: a qualitative systematic review. Hernia. 2025;30(1):19. doi:10.1007/s10029-025-03501-w.

Este texto tem finalidade exclusivamente educacional e não substitui a avaliação individualizada por um profissional de saúde.

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