​​Hérnia na mulher: dor na virilha não é normal e diagnóstico costuma atrasar, entenda o motivo 

Embora as hérnias na região da virilha sejam mais comuns em homens, elas têm características muito particulares nas mulheres, e, justamente por isso, podem ser subdiagnosticadas.

Muitas mulheres convivem por meses ou anos com dor na virilha ou na pelve, ouvindo que “é normal”, que pode ser do ciclo menstrual, da ovulação ou de algum desconforto ginecológico.

Mas não é normal conviver com dor inguinal.

A principal diferença entre esses dois tipos de hérnia é que a femoral acontece no local de passagem utilizado pelos grandes vasos sanguíneos, já a inguinal extravasa o local de passagem do testículo para a bolsa escrotal. 

Neste artigo, explicamos de forma clara e acessível porque a hérnia na mulher é diferente, porque o diagnóstico pode ser mais difícil e qual é o tratamento mais seguro, segundo as diretrizes internacionais mais atuais.

Por que a hérnia na mulher costuma ser subdiagnosticada?

O subdiagnóstico das hérnias em mulheres acontece por vários motivos, que  se somam, são eles: 

1º – A mulher tem órgãos pélvicos importantes e dores abdominais frequentes ao longo da vida, relacionadas ao ciclo menstrual, ovulação, intestino ou bexiga. Isso faz com que a dor inguinal seja muitas vezes normalizada.

2º- Falta escuta qualificada e exame físico direcionado. A dor da mulher ainda é, infelizmente, subvalorizada em muitos contextos.

3º – As hérnias em mulheres nem sempre são fáceis de identificar em um exame físico padrão. Diferente do que acontece em muitos homens, o “caroço” pode não ser evidente, especialmente nas hérnias femorais.

Importante ressaltar que a dor inguinal não deve ser automaticamente atribuída à menstruação, ovulação ou rotina. Se existe sintoma recorrente, é necessário exame físico cuidadoso e, muitas vezes, exames de imagem complementares.

Por que a hérnia na mulher é diferente?

A ocorrência de hérnias na virilha ao longo da vida é menor em mulheres (cerca de 3–6%) do que em homens (27–43%). No entanto, o tipo de hérnia e os riscos associados são diferentes.

Isso acontece principalmente por dois fatores:

1 – Anatomia feminina: 

A pelve da mulher tem uma estrutura diferente, com um músculo reto abdominal mais largo e maior distância entre certas estruturas ósseas, o que influencia diretamente os tipos de hérnia que se formam.

2. Hérnia femoral é mais comum em mulheres: 

Enquanto a hérnia inguinal é de 9 a 12 vezes mais comum em homens, a hérnia femoral ocorre cerca de 4 vezes mais em mulheres.

E esse dado é crucial, porque as hérnias femorais apresentam risco significativamente maior de complicações.

O grande desafio é que, muitas vezes, não é possível diferenciar uma hérnia inguinal de uma femoral apenas pelo exame físico, especialmente em mulheres com sobrepeso ou obesidade. Por isso, exames de imagem podem ser fundamentais.

Hérnia femoral: um risco maior que exige atenção

As hérnias femorais têm maior risco de complicações graves, como:

  • Encarceramento: quando o conteúdo herniado (intestino ou outro tecido) fica preso e não retorna ao abdômen
  • Estrangulamento: uma emergência médica, quando o fluxo sanguíneo do tecido é interrompido, podendo levar à necrose intestinal

Os dados são claros:

  • Cerca de 17% das mulheres com hérnias na virilha acabam necessitando de cirurgia de emergência, contra aproximadamente 5% dos homens;
  • As hérnias femorais têm probabilidade muito maior de estrangular em comparação com as hérnias inguinais, mesmo nas hérnias femorais assintomáticas;
  • Uma cirurgia de emergência por hérnia femoral aumenta em até 20 vezes o risco de mortalidade em comparação com uma cirurgia programada. 

“Apenas observar” não é a melhor estratégia para mulheres com hérnia na virilha 

Em homens com hérnias inguinais pequenas e sem sintomas, a estratégia de watchful waiting (“apenas observar”) pode ser considerada segura.

Para mulheres, essa abordagem não é recomendada.

O motivo é simples: o risco de uma hérnia femoral passar despercebida e evoluir com complicações graves é alto. Por isso, o tratamento cirúrgico programado é fortemente recomendado para mulheres com hérnia na virilha, mesmo quando os sintomas parecem leves.

Qual é o tratamento mais indicado para mulheres?

As diretrizes internacionais recomendam que mulheres com hérnia na virilha sejam tratadas, sempre que possível, por cirurgia videolaparoscópica com uso de tela, desde que realizada por cirurgião experiente.

Essa recomendação existe porque:

  • A cirurgia por vídeo permite visualização completa da região inguinal e femoral;
  • Reduz drasticamente o risco de não identificar uma hérnia femoral;
  • Evita limitações das cirurgias abertas pela frente, como a técnica de Lichtenstein;
  • Estudos mostram menores taxas de reoperação em mulheres tratadas por via laparoscópica. 

Hérnia na gravidez: atenção ao diagnóstico diferencial

O aparecimento de um “caroço” na virilha durante a gestação é raro, e, na maioria das vezes, não é uma hérnia.

A causa mais comum é a varicosidade do ligamento redondo, que são veias dilatadas decorrentes das alterações hormonais e do aumento da pressão abdominal.

  • Diagnóstico: um exame de ultrassom com doppler colorido pode confirmar o parecer médico;
  • Tratamento: observação, pois costuma regredir após o parto.

Importante! 

Muitas hérnias em mulheres são pequenas e silenciosas, mas potencialmente perigosas se não diagnosticadas.

Se você é mulher e sente dor na virilha ou suspeita de hérnia, não normalize a dor. Procure um cirurgião especialista para uma avaliação detalhada.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Somente um cirurgião especialista pode avaliar, diagnosticar e indicar o melhor tratamento para cada caso.

Referência Principal:

Fonte: Guidelines EHS – European Hernia Society

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